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26/10/2018 às 22h19min - Atualizada em 26/10/2018 às 22h19min

​Um pouco de história, desrazão e poesia

Redação M2 News
Silvia Nery - Redação M2 News


 
Até o ano de 2005, toda a assistência em Saúde Mental girou em torno do atendimento ambulatorial em psiquiatria na Policlínica Codajás e no então Hospital Colônia Eduardo Ribeiro.

 Na área do Eduardo Ribeiro coexistiam três serviços. O Ambulatório Rosa Blaya, onde os pacientes, vindos de toda a Manaus e até do interior tinham que pernoitar para conseguir sua consulta ambulatorial. Hoje este serviço foi descentralizado para policlínicas da cidade, mas a dificuldade para conseguir a consulta permanece.

Lá também funcionava o Pronto Socorro Psiquiátrico Humberto Mendonça, que até hoje atende a todas as emergências psiquiátricas de Manaus, quiça do Estado do Amazonas, possuindo 08 leitos para observação e 20 leitos para internação breve.
E na linda e ampla área por trás do PS Humberto Mendonça estavam os remanescentes da Era Asilar, os “filhos do Colônia” cujos laços familiares já tinham há muito se desfeito face aos longos anos de internação. Uns, chegaram na adolescência de mala e cuia, outros, vieram para passar uns dias e lá foram esquecidos pelas famílias, na época em que era permitido morar no Hospício. Uma vida inteira dentro daquele lugar.

Recordo que existia o pavilhão dos moradores de alta dependência. Eram idosos cadeirantes, acamados, já com pouca audição, cegos, que eram cuidados pelos auxiliares de saúde.

Em 2010, eu, uma jovem e impetuosa residente quando iniciei meus primeiros passos na psiquiatria, no Hospital Psiquiátrico Eduardo Ribeiro, instituição a qual respeito e devo boa parte da minha formação. Confesso que, apesar da beleza da “área de trás”, ela me despertava muita tristeza. Era difícil compreender o abandono.

Já nesta época não se internava mais de maneira asilar (para morar). Mas ainda restavam os herdeiros da época da exclusão. É claro que isso deve ser entendido dentro de um contexto histórico. Como bem afirmou Foucault, a loucura foi herdeira da lepra. Logo que  se descobriu o tratamento da hanseníase, não houve mais necessidade de excluir. Os grandes leprosários deram então, lugar aos grandes manicômios.

Em 1952 se descobriu a clorpromazina, a grande esvaziadora de Hospícios. Costumo dizer que não há nada mais reformista que o remédio controlado, a droga! Entretanto, foi necessário também mudar, ou pelo menos tentar mudar, aquilo que estava constituído como verdade no imaginário das pessoas: que o louco tem que está preso, internado em um manicômio.

Não, o louco pode ser qualquer um de nós, ou todos nós. Podemos e devemos ser tratados, mas não afastados do seio familiar, apenas por breves momentos, nos casos de necessária hospitalização para controle das crises.

Certa vez, durante um dos plantões noturnos no PS, fui chamada para atestar o óbito de uma das moradoras mais antigas do pavilhão. Caminhei até lá, pássaros cantando, o dia vinha raiando. Sentia o cheiro do café recendendo do refeitório.

Quando cheguei ao quarto, ela deitada na cama, embrulhada, em posição fetal, já com a rigidez cadavérica instalada, sinal de que morrera há mais de duas horas. A face serena, quase sorrindo. Sentei-me ao lado dela e pensei: pronto.

Acabou. Agora você está livre. Lá fora, no rádio  tocava uma música que lembro bem: “...Mas não tem revolta não. Eu só quero que você se encontre. Saudade até que é bom. É melhor que caminhar vazio. A Esperança é um dom que eu tenho em mim. Eu tenho sim. Não tem desespero, não. Você me ensinou milhões de coisas. Tenho um sonho e minhas mãos. Amanhã será um novo dia. Certamente eu vou ser mais feliz...”. Em silêncio, ao lado dela, chorei. Foi uma confusão de sentimentos e também tristeza.

Certamente essa não era a melhor maneira de partir, sozinha, abandonada.  Eu sempre sonho em partir em um dia ensolarado, sentada próxima à janela, rodeada do afeto daqueles a quem eu amo e pertenço. Penso que não existe nada melhor do que pertencer, amar e ser amado. Esta sim, seria uma bela maneira de partir.

Graças a criação da rede de atenção psicossocial, surgiu o Lar Rosa Blaya em 2014, residências terapêuticas para onde foram transferidos todos os filhos do Hospital colônia. Foram agrupados por afinidade e passaram a ter seus próprios quartos, suas camas, suas “coisas”, sua individualidade, sua personalidade de volta.

Pessoas são únicas, seus gostos, desejos, sonhos. Suas subjetividades não podem ser apagadas ou ignoradas. Esse é um desejo de todos aqueles que militam na saúde mental.  Não desejamos excluir pessoas nunca mais. Ninguém vai morar no hospício nunca mais. E vamos repetir isso até que nossas vozes façam eco dentro de nós e principalmente, fora de nós. Que trilhemos o caminho do cuidado e não do abandono ou da exclusão.
 

Sobre a autora:

Silvia Nery é médica psiquiatra, estudante de direito da UEA e uma entusiasta das letras.
 

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