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17/08/2019 às 13h20min - Atualizada em 17/08/2019 às 13h20min

Embalos de Sábado à noite: sobre ideação suicida e automutilação no PS Eduardo Ribeiro

Silvia Nery
Especial para M2 News

Foto: Arquivo/M2 News

 

 

“Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo”. Este é um trecho do Menestrel, poema lindíssimo que tem muito a nos dizer. E depois de atender mais um caso de ideação suicida e automutilação, neste lugar onde aprendo todos os sábados à noite há quase 10 anos, o PS psiquiátrico Eduardo Ribeiro, fiquei meditando nesta parte do texto e pensando como os poetas, artistas, escritores possuem uma expertise para falar de gente, para falar da gente, da alma da gente.
 

A gente aprende, que o sol queima se ficar exposto, ou pelo menos deveria aprender. Aprender com as experiências sucessivas, com o amadurecimento. A questão é que as vezes a gente não aprende!
 

Não é uma questão de julgar quem não aprende e sim compreender e fazer compreender que existem outras formas de se lidar com a dor, em particular a dor emocional. Beber, fumar, comer, transar, gastar, fazer a carne sangrar como forma de suplantar a dor emocional pode trazer consequências graves:  arruinar relacionamentos, empregos, a saúde e a própria vida.
 

As vezes olhamos, mas não enxergamos que sangrar até a última gota é uma opção, mas não a única opção ou a mais saudável.
 

Certa vez, durante o atendimento de uma jovem que havia se automutilado e afirmava querer morrer após um problema familiar, esclareci brevemente sobre a diferença entre transtorno mental e transtorno de personalidade. O primeiro se trata com medicação e com suporte da terapia para evitar agudização diante das intempéries da vida, enquanto que o último se trata com terapia, auto entendimento, identificação de traços disfuncionais e o desenvolvimento de estratégias de enfrentamento dos problemas em busca de uma vida melhor adaptada e com menos sofrimento. Eu nem tinha terminado ainda quando a acompanhante bradou: eu exijo que você a medique. Eu quero que você faça o seu trabalho. Passe um remédio para ela parar de sofrer!
 

Eu respirei fundo, afinal o que todo mundo deseja é um remédio que venha na caixinha e que resolva o nosso problema. A não aceitação de medicalizar o sofrimento é um tapa na cara da sociedade, que não aceita que sofrer e perder faz parte da vida. Podemos aprender a reagir melhor, a sofrer menos, a não deixar o sol queimar até descascar a pele. A terapia é o caminho.
 

Até podemos “medicar” naquele momento para diminuir o sofrimento, para evitar o fim.  Mas é muito importante reforçar que o remédio não irá “resolver”. A terapia é o caminho para aprender a lidar com a dor emocional, evoluir, transcender em um processo feito de duas partes: terapeuta e paciente. É necessário que você faça o seu dever de casa, sua parte, implementar as mudanças necessárias ou possíveis.
 

Após esta consulta com os devidos esclarecimentos lá estava a jovem, mais calma, não chorava, não queria mais morrer, dos braços não minava mais o sangue. Então eu perguntei: você ainda vai querer a injeção? Posso fazer se você quiser. Mas ela disse que não precisava. Não era depressão. Não havia transtorno mental, apenas aborrecimento e frustração. Ela sorriu e se foi com o seu encaminhamento para a psicoterapia em mãos. Este é apenas um caso, entre tantos casos. Nunca poderemos generalizar. Em caso de ideação suicida e automutilação as pessoas devem ser encaminhadas para a avaliação psiquiátrica no Pronto Socorro Psiquiátrico. Mas cada pessoa, cada plantão, cada sábado à noite sempre nos ensina alguma coisa.
 

Depois disso eu não sei o porquê, mas me veio à mente esse poema, em particular esse trecho: “Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo”, ou pelo menos, deveria aprender...




Sobre a autora:
Silvia Nery é médica psiquiatra, estudante de direito da UEA e uma entusiasta das letras. 

 

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