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06/11/2019 às 13h04min - Atualizada em 06/11/2019 às 13h04min

Luto: Quando o amor deixa de morar fora para viver dentro de nós.

Colunista do M2, Silvia Nery faz uma reflexão sobre o o que é Luto.

Silvia Nery
Especial - M2 News
Foto: Reprodução/M2 News

Nascer e morrer são dois fenômenos naturais que fazem parte da vida. Aliás, a partir do momento em que nascemos já começamos a morrer. Mesmo assim a maioria de nós ainda não está preparada para partir ou vivenciar a perda de um ente querido. Assim, surge o luto.

O luto é uma reação humana normal relacionada ao sentimento de perda, que pode ser de um relacionamento, de um emprego ou de um ente querido. A pessoa que perde alguém passa normalmente por 05 fases: a negação, a raiva, a barganha, a depressão e a aceitação.

A fase de negação pode ser encarada como um mecanismo de defesa e nela a pessoa se nega a aceitar com clareza o ocorrido. Depois vem a raiva, a revolta e algumas pessoas chegam a “brigar com Deus” por causa do que aconteceu. Muitos pensam: porque comigo?!

Na fase da barganha, o sujeito passa a ponderar e a fazer acordos internos na tentativa de diminuir o seu sofrimento, acordos esses normalmente ligados à religiosidade. Diante da morte iminente de um parente a pessoa faz promessas ou sacrifícios na tentativa de evitar o inevitável. Depois vem a depressão, que é dominada pela melancolia diante da inegável perda, da ausência e da incapacidade de mudar a realidade. Muitas pessoas estacionam nesta fase, que costuma ser a mais longa. Tendem a se isolar e podem ter comportamentos autodestrutivos.

A última fase é a aceitação. Nesta fase o desespero dá lugar à serenidade. Podem surgir estratégias para lidar com a questão: uma viagem, um curso, mudança de domicílio, escrever um livro, criação de um projeto novo. Cada pessoa encontra seu próprio caminho para lidar com a sua perda.

É importante salientar que nem todas as pessoas passam por uma fase de cada vez, de maneira linear e que ocasionalmente a pessoa pode retornar a uma fase anterior.

O luto de que perdeu alguém por suicídio é diferente, mais demorado e permeado de culpa, raiva e o estigma. As pessoas em geral se afastam por não saber o que dizer e o enlutado, também chamado de sobrevivente, deixa muitas vezes de ser acolhido e escutado pelo medo do outro de falar no assunto, que ainda é um tabu em nossa sociedade.

A grande pergunta que fica para quem perdeu seu ente querido pelo suicídio é: por que? Essa resposta se vai com quem partiu. Nunca a teremos e essa busca por resposta não acrescentará nada de bom. Inclusive a própria visão ou campo de consciência de um suicida está turvada pela emoção ou distorcida por algum transtorno mental, assim, nem mesmo as “cartas de despedida” ajudarão.

Nos casos de suicídio é importante se falar na pósvenção, termo  que se refere à prevenção do suicídio, ao luto dos sobreviventes e ao desenvolvimento de atividades após a perda.

Apesar de ser profissional e usar os manuais técnicos de classificação para diagnóstico de transtornos mentais (como a CID e o DSM), sou uma crítica em relação a patologização de determinados comportamentos e da colocação de “prazos” para o sofrimento. No DSM V (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais V) surge a figura do luto patológico ou complicado, que é aquele que se estende por mais de 12 meses e causa prejuízo significativo na vida de um sujeito. Tive que torcer o nariz. Cada pessoa tem seu tempo. Desta maneira não podemos ou pelo menos não deveríamos botar “prazo de validade na dor do outro”. Uma dor que não nos pertence.

Como mãe de uma filha de 03 anos me questionei: como é possível superar a perda de um filho em um ano? Existe vida após a morte de um filho? Existe felicidade após a morte de um filho? É possível continuar quando um pedaço de você se vai para sempre? O que dizer a quem perdeu seu “coração”?

A perda de um filho quebra a sequência lógica da vida, já que sempre imaginamos que enterraremos nossos pais e seremos enterrados pelos nossos filhos. É claro que na vida não há garantias.

Em busca destas respostas conheci o GAPS (Grupo de Apoio aos Pais na Saudade). Um grupo que já tem 12 anos em Manaus e foi idealizado por amigas e mães que perderam seus filhos, ou entregaram para Deus, como dizem algumas delas. Fui ao GAPS em busca de aprender a acolher e fui acolhida. Encontrei pessoas que perderam um, dois filhos, por acidentes, doenças, assassinatos e suicídio. Uns perderam há poucos dias, outros há décadas. Um espaço de fala, terapêutico e de uma experiência transformadora.

Aprendi com esses pais que cada um tem seu tempo. Que a dor tem que ser sentida, mas que também “é preciso se permitir continuar a viver e evitar o aprisionamento na dor e na amargura”. Esta última frase ouvi de um pai que perdeu seus dois filhos em um acidente com um caminhão de gás há quase 16 anos.

Aprendi com eles que é possível continuar a viver e ter momentos de felicidade. Também haverá momentos de tristeza e é normal. Com eles aprendi que nunca mais seremos os mesmos após a morte de um filho...e tudo bem, também, pois se experimenta uma estilhaçamento de tudo que existiu.

Não precisamos tirar a foto da parede, doar ou jogar as roupas fora, deixar de falar sobre quem se foi. Ele ou ela existiu e não deve ser ignorado (a), pois jamais será esquecido por quem o(a) ama, pois quem parte, deixa de morar fora e passa a viver dentro de nós. Levamos conosco para onde formos.
O luto surge então como um ponto de mutação, uma maneira de ressignificar a vida e os valores a partir de outra perspectiva, não constituindo o fim, mas um recomeço.

Por último perguntei à mãe fundadora do GAPS, a Sra Fabíola Galvão o que dizer ou fazer a alguém que perdeu seu ente querido e ela me respondeu: Vai doer, mas vai passar e eu estou aqui para te ajudar! Achei superimportante a fala desta mãe, pois muitas vezes nos afastamos por não saber o que dizer ou como agir.

Fernando Sabino disse o seguinte em seu poema intitulado “O Encontro Marcado”:
De tudo ficaram três coisas...
A certeza de que estamos começando...
A certeza de que é preciso continuar...
A certeza de que podemos ser interrompidos antes de terminar...
Façamos da interrupção um caminho novo...
Da queda, um passo de dança...
Do medo, uma escada...
Do sonho, uma ponte...
Da procura, um encontro!

 
Somos matéria, mas muitos de nós não ignora a dimensão espiritual e tem o anseio de um tão desejado encontro e um abraço apertado numa estação qualquer, pois para quem acredita a esperança não tem fim!



Sobre a autora:
Silvia Nery é médica psiquiatra, estudante de direito da UEA e uma entusiasta das letras. 
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