06/01/2020 às 09h39min - Atualizada em 06/01/2020 às 09h39min

​Um devaneio matemático

Especial para M2 News
Silvia Nery
Tradicional Colégio Amazonense D. Pedro II, em Manaus. Foto: Arquivo/M2 News

 
Quando eu tinha 14 anos, minha irmã, que tinha 15 anos passou no mini vestibular do Colégio Estadual, chamado Colégio Amazonense Pedro Segundo, no Centro. Os mais antigos sabem que este era um colégio tradicional da cidade e para estudar lá era necessário fazer uma seleção, uma espécie de mini vestibular como era conhecido a época.

Então, na década de 90 minha irmã começou a estudar lá. Ela era deficiente visual. Visão zero. Fez vários colegas. Um dele se chamava Heitor. Ela ia e voltava andando, do Bairro de Santa Luzia, passando pela ponte de ferro da avenida 7 de Setembro, até chegar ao Centro. Morávamos na Santa Luzia, Heitor morava no Morro da Liberdade e vinham mais alguns colegas que moravam pelos arredores. Não tínhamos carro e de ônibus era demorado e caro. Então mamãe achava melhor ir a pé mesmo.  

Heitor frequentava nossa casa. Era muito bom de matemática, inclusive ajudava meu irmão mais novo a fazer seus trabalhos de matemática. Ele dizia que se tornaria PHD em matemática.

Minha irmã estudou apenas dois anos no Colégio Estadual, sendo aprovada para o curso de Serviço Social na Universidade Federal do Amazonas. Concorreu com os de visão normal. Não havia cota para deficientes ou qualquer incremento no tempo de realização da prova, apenas um “ledor” para ler a prova e preencher o gabarito.

Nesses dois anos Heitor se ausentou alguns períodos. Ele dizia apenas que sofria dos nervos. Mas não notávamos nada de diferente, exceto alguns períodos no qual ele falava mais acelerado e suas ausências esporádicas à escola. Ele gostava muito da minha irmã. Tinha compaixão dela pelo fato de ser cega e das dificuldades que enfrentava por conta da deficiência. Certa vez até escreveu um poema para ela como presente de aniversário. Chamava-se: Poema à minha amiga ideal, Hortência. Na ocasião o declamou com bastante fervor. Era bonito, pena que o tempo apagou da memória.

Com a ida da minha irmã para a faculdade, perdemos contato com Heitor. A vida seguiu seu rumo. Passados mais de dez anos, caminhando pelo centro da cidade o encontrei empurrando um carrinho vendendo picolé. Ele me olhou acanhado e disse: para um PHD em matemática eu não me saí tão bem. Uma lágrima brotou no canto do seu olho. Eu sem saber o que dizer, respondi: não diga isso. Todo emprego é digno. E você ainda pode estudar matemática. Ele me disse que não tivera filhos e que ainda residia com os pais, no Morro da Liberdade, numa casinha de madeira humilde.

Em 2010 comecei a dar plantão no Hospital psiquiátrico. Certa noite vou entrando no Hospital, carregando minhas coisas e vejo aquele homem moreno, emagrecido, descalço, só de bermuda, vindo em minha direção. Ele me reconheceu antes e começou a declamar: Poema à minha amiga ideal, Hortência. Eu desabei. Era Heitor, internado com uma crise maníaca (uma das fases do transtorno bipolar), insone, agitado, logorréico (falando muito e rápido), porém orientado no tempo, espaço e pessoa. Delírios de grandeza, de grandes descobertas matemáticas e tantos outros delírios. Ao me ver em prantos ele disse: não se preocupe, dra. Silvia Nery. Eu estou bem. Como vai minha amiga, Hortência?

Guardei minhas coisas, avaliei os pacientes da observação e depois me dirigi ao setor de internação. Fui ver Heitor e o que sobrou dele após anos de adoecimento mental. O transtorno paralisou sua vida. O pai morreu e ele ainda vivia com a mãe. Não era agressivo, mas estava com a libido algo exacerbada, insônia. Não conseguia emprego fixo, não conseguiu benefício do INSS. Não constituiu família. Quase 20 anos se passaram desde que nos conhecemos. Nossas vidas mudaram completamente, a dele para bem pior. Havia sequelas do transtorno mental e da perda neuronal, dos surtos subsequentes. Dor no peito é a única coisa que consigo expressar.

Certa feita, assistindo ao noticiário local meu irmão caçula viu o seu antigo “professor de matemática”. Estava aparecendo no jornal uma festividade. Era carnaval e estavam mostrando um baile ocorrido nas dependências do Hospital Eduardo Ribeiro. Heitor dançava ensandecido com um colar colorido, girando, girando e fazendo trenzinho. Serpentinas no ar e ao fundo, as marchinhas de carnaval a tocar.

A última vez que vi Heitor foi numa noite de natal. Eu estava escalada para o plantão e o menu do Hospício não é lá essas coisas. Então, levei uns 30 panetones para distribuir aos pacientes após o jantar. Não é muita coisa, mas um pingo de doçura nessa existência arrasada pela doença mental.

 Após os atendimentos. Foi servido o jantar dos pacientes da observação e eu me dirigi à internação. Lá estava ele, que me reconheceu de pronto, abraçou-me e desejou feliz natal. Junto com técnicos e enfermeiros, cortei os pedaços de panetone e distribuímos a todos.

Heitor sentou em seu leito para degustar o mimo. Sentei também, no posto de enfermagem da unidade de internação breve e fiquei observando em silêncio. Ele e os outros. Tantas histórias, tanto sofrimento. Podia ser eu, você, seu pai, seu amigo, o amor da sua vida. A doença não faz acepção de pessoas. Havia em mim um mar de sentimentos, mas um vazio de palavras. Recordo agora de uma frase, que não sei quem é o autor, mas que expressa bem aquele instante: Existem momentos na vida da gente, em que as palavras perdem o sentido ou parecem inúteis, e, por mais que a gente pense numa forma de emprega-las elas parecem não servir. Então a gente não diz, apenas sente.”

Gosto de escrever sem censura, sem regras, até mesmo utilizando termos anacrônicos como hospício ou doença mental, mas, tenho licença literária para isso, pois, a poesia pede passagem...
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