04/02/2020 às 17h32min - Atualizada em 04/02/2020 às 17h32min

Deixando Marcas

Silvia Nery - Especial para o M2 News
Silvia Nery
Mão negativa do Homem Aurignaciano que pintou as paredes da caverna de Chauvet - Pont d'Arc. Foto:. Monney MCC/Direitos Reservados
 
Há 30 mil anos alguém, um hominídeo, deixou uma marca na parede de uma caverna. Tentando dizer talvez: eu estive aqui (HARARI, Y. N, 2019). Ao longo do tempo o homem veio deixando vestígios de sua existência, através de pinturas nas paredes, esculturas e pequenos rastros que nos faz depreender do que se alimentavam, como se relacionavam, enfim, de como viviam.

Com o surgimento da escrita, marcando o início da história, os registros se tornaram mais fáceis. Documentos antigos trazem receitas, fórmulas, descrições médicas completas, belíssimas poesias, histórias e a criação de seus mitos. O acúmulo de tudo isso se chamou cultura.

De lá pra cá temos tentado deixar nossas marcas, registrando nossos momentos, o desenvolvimento da sétima arte, música, pintura, escultura, poesia. O desenvolvimento tecnológico foi essencial para esses registros e sua disseminação por todo o mundo. A princípio rolos de filmes imensos, cassetes antigos, MP4, disquete, CDs e atualmente com as mais modernas máquinas filmadoras e tecnologias. Não podemos esquecer dos livros, é claro, uma das principais testemunhas da história.
 
Registrar. Registrar é importante para o mundo, mas principalmente para nós mesmos. Para olhar aquela foto antiga do fundo do baú, do domingo na casa da avó, do cachorro da nossa infância, do nosso primeiro dia de aula, daquele porre que nos arrasou, da entrada na faculdade e principalmente, da saída.

Dos lugares maravilhosos que tivemos a oportunidade de conhecer. Do casamento, do nascimento dos filhos, dos netos, das bodas de 50 anos. Muitas coisas ficarão para sempre no fundo da minha retina e em apenas algum lugar secreto da minha memória, pois eu não tinha essa noção do quanto é importante registrar. Assim, muito de mim se perdeu com o tempo e muito de vocês também.

Amanhã, quando a memória falhar e a saudade bater, tudo estará lá, registrado, filmado. E poderemos aplacar um pouco da saudade do que se foi, daqueles domingos em família, dos passeios no parque com os irmãos, daquelas visitas às fábricas da coca cola e daqueles deliciosos militos que não existem mais e, principalmente, daqueles nossos amados que já há muito alcançaram a eternidade. Somos um ponto insignificante na história da humanidade. Um ponto que insiste em gritar: estou aqui.

 

Temos ilusões, quanto a nossa importância e principalmente, quanto a nossas posses. Enquanto a verdade é que não possuímos nada. Nem o nosso próprio corpo nos pertence após a nossa partida. Somos tão orgulhosos daquele carro ou daquela casa gigante que conquistamos. Mas a verdade é que daqui cem anos ninguém saberá o quanto significou para nós, o quanto fomos felizes dentro das paredes desse lar. Assim, chego à conclusão que não somos donos, apenas usufrutuários.

 
Temos a ilusão do poder, do saber, mas mesmo aqueles que fizeram grandes descobertas, escreveram grandes obras, construíram pirâmides ou pisaram na lua descansam agora sob nossos pés. Ninguém resistiu ao poder do tempo. Ninguém resistirá.

Assim, seguimos registrando, fotografando, filmando, gravando, escrevendo livros. Somos testemunhas do nosso tempo. Nem tudo o que registramos terá importância, apenas alguns fatos se tornarão históricos. Mas seguimos por aqui, tentando deixar as nossas marcas. E quando o futuro longínquo chegar, a história certamente nos julgará, pois a história não dorme no ponto... e talvez haverá alguém para torcer o nariz para os nossos penteados, nossos dramas e nossos costumes. Paciência. É o risco que corremos com toda essa “exposição”.






Sobre a autora:
Silvia Nery é médica psiquiatra, estudante de direito da UEA e uma entusiasta das letras. Mantém sua coluna no Portal M2 News desde 2018.
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