10/03/2020 às 09h43min - Atualizada em 10/03/2020 às 09h43min

Quem Ama cuida

Especial para M2 News
Silvia Nery
Foto: Reprodução
As vezes estamos tão ocupados na nossa luta diária que não percebemos o tempo passar.  No começo da minha residência em psiquiatria, conheci uma paciente, que me causou uma sensação de medo.  Branca, obesa, com cicatrizes terríveis de queimadura. Falava alto, gritando muitas vezes. Muito, muito agressiva. Chamava-se Eva. Tinha descendência Alemã. Os demais parentes moravam   na Alemanha.


Eva tinha um transtorno de humor grave associado a sintomas psicóticos. Ouvia vozes, sentia-se perseguida, tinha o humor irritável e era bastante agitada. Ela passava de semanas sem dormir.  Um caso realmente muito grave de transtorno mental.


Com o tempo conheci os filhos de Eva. Pedro e Paulo, dois adolescentes de 15 e 16 anos. Certa noite, durante uma das entradas de Eva no Pronto Socorro psiquiátrico eles me contaram que a mãe adoecera após ser abandonada pelo marido, o pai deles. Um dos tantos casos em que o marido foi comprar cigarro e nunca mais voltou.


Eva entrou em um luto complicado e enveredou por um episódio depressivo grave, culminando com uma tentativa de suicídio por imolação. Jogou álcool pelo corpo e tacou fogo. Daí vinham aquelas cicatrizes enormes com quelóides que desfiguraram seu corpo e seu lindo rosto.


Passados quase 10 anos, encontro Eva novamente no PS. Os filhos cresceram. Pedro casou e foi morar com a nova esposa, mas Paulo ficou para cuidar da mãe. Tentou alguns relacionamentos, porém as pretendentes desistiam quando conheciam Eva, pois Paulo sempre deixou muito claro a todos que jamais a abandonaria. E conviver com Eva não devia ser tarefa fácil. Era preciso muito amor, mas isso Paulo tinha de sobra.


Paulo arrumou emprego de motoboy e ia em casa na hora do almoço e no jantar levar uma marmita de comida para a mãe, que não ficava presa em casa. Ele alegava que ela não gostava de ficar trancada, gritava, chamava os vizinhos. Então resolveu deixar a porta aberta. Também comprava o cigarro para que Eva não ficasse pedindo na rua. Eu via respeito e cuidado em cada ação dessa. Ele respeitava sua vontade, estimulava sua autonomia e mesmo com poucos recursos procurava prover o necessário.

Com o tempo, arrumou mais um emprego. Trabalhava duro de motoboy em dois restaurantes. Contratou uma moça para cuidar da casa e de Eva e controlar os cigarros, para que ela não fumasse tanto.

Certa vez, numa das tantas permanências de Eva no Hospital psiquiátrico, fui chamada à Unidade de internação breve para avaliar um paciente agressivo. Ao passar pelo corredor que dava acesso à internação, encontrei Eva deitada no chão abraçada ao seu filho Paulo durante a visita. Ele estava descalço, sorria pueril, também deitado ao chão agarrado à mãe. Ela lhe acariciava os cabelos. Tomei um choque: meu Deus, ele enlouqueceu também! Fui tomada de uma tristeza profunda, pois o vi crescer e se tornar um homem. Presenciei seu sofrimento por quase uma década.

Ao final da visita eu o chamei para conversar. Ele me explicou que estava descalço porque andava de moto, então era melhor dirigir a moto descalço. Ele estava bem, não havia enlouquecido. Mas disse que depois de um tempo vivendo a dor emocional, a violência, a vergonha quando a mãe surtava e saia nua pela rua, a fome, tudo de maneira explícita, diante dos olhos de todos, havia se acostumado a ser ignorado e passou a ignorar também o mundo a sua volta.

Ninguém nunca se importou. Ninguém nunca deu a mão.  Assim, ele não via motivo para ter vergonha e vivenciar o carinho que a mãe tinha por ele, da maneira dela, do jeito dela. Mesmo diante da profunda loucura o amor a trazia de volta para esse mundo, para essa dimensão. Ela era doente, mas era sua mãe e ele jamais a abandonaria. Ela já havia sido abandonada uma vez. Eles também. Então estaria com ela, no sol, na chuva, na rua ou no chão do hospício, independente do olhar de quem os cercava.

 Eu via nele o cuidado e a nobreza do verdadeiro amor. Vi isso poucas vezes na minha vida. Acho que foi um amor assim que eu li na carta do apóstolo Paulo aos Coríntios: O amor é sempre paciente e generoso. Nunca é invejoso. O amor nunca é prepotente nem orgulhoso. Não é rude nem egoísta. Não se ofende nem se recente do mal...e tudo perdoa, tudo crê, e tudo espera e tudo suporta.

A última vez que encontrei Eva, foi há uma semana, no PS. Ela já não me inspirava medo, mas compaixão. O que a vida fez com aquela mulher? A doença consumiu seus melhores anos. Mas havia algo de bom em tudo isso. Ela não estava só. Será que teremos a sorte de ser cuidados pelos nossos queridos? O futuro dirá...

Veio acompanhada dos filhos. Eles vieram porque ouviram falar que existiam novas drogas para tratamento do transtorno mental. Uma vizinha deles contou que um parente estava usando uma medicação nova, porém cara, mas que tinha melhorado muito o quadro do familiar dela. Eles estavam esperançosos. Queriam tentar.

Conversamos sobre novas alternativas terapêuticas que poderiam ser tentadas e encaminhei para um CAPS para que tivesse o apoio das terapias, além da oportunidade de um tratamento contínuo e acesso à medicações pelo Programa de medicações de alto custo. Eva ficou em observação e os filhos foram atrás de providenciar a medicação necessária.
Eu tenho poucas certezas nessa vida, mas uma delas eu aprendi com o tempo vendo essa gente sofrida que tem a estranha mania de ter fé na vida: quem ama cuida...
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