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19/04/2020 às 15h05min - Atualizada em 19/04/2020 às 15h05min

​Pandemia

Silvia Nery
Especial para o M2 News
Modificação sobre tela l “Operários”, de Tarsila do Amaral, de 1933. Foto: Montagem/M2 News

Quando a dor emocional me invade, a arte me surge como salvo-conduto, como passaporte para a sanidade. O que eu faço quando eu estou triste? Eu choro, ouço música, eu leio, eu vejo e principalmente ... eu oro.

Passeando entre os meus papéis, isolada de quarentena no meu escritório, folheando um livro, eu vi uma tela de Tarsila do Amaral chamada “Operários”, de 1933.  Ela me chamou muito a atenção, como nunca me chamou em outro momento. Vi um aglomerado de gente.

A arte é isso. Inquieta, desperta sensações e pensamentos, traduz, reflete, as vezes não o que o próprio artista quis dizer, mas o que a nossa alma nos comunica naquele momento. No nosso momento.

A tela retrata originalmente uma crítica ao período de industrialização brasileira, em particular, no Estado de São Paulo, mas para mim veio a idéia de o quanto faz parte do homem querer “estar junto”. É da nossa natureza gregária, que nos permitiu perpetuar, evoluir enquanto espécie, permanecer e dominar este planeta, ou acabar com ele, como alguns preferem dizer.

Por estar juntos, o inimigo invisível que enfrentamos se propagou para além daquilo que damos conta.

E agora? Agora precisamos estar juntos e articulados no sentido da cooperação mútua para ações coordenadas que dependem em parte do governo, mas em parte, de nossas próprias ações. É estar “juntos” e separados ao mesmo tempo para esperar a tempestade passar.

E quando passar, não teremos como voltar ao status quo, ao mundo como anteriormente o conhecemos, pois haverá o vazio dos que se foram e só existem ou existirão em nossas memórias, em nossos corações e no porta retratos da sala. São as vítimas da pandemia e nós, os seus órfãos.

Estes rostos borrados da imagem de Tarsila, feitos propositalmente por nós, representam os trabalhadores da saúde que tombaram na luta contra o vírus, ou os operários atuais que perderam seus empregos devido à crise instalada pela pandemia ou os nossos queridos que se foram. Eles estavam lá e hoje seus lugares estão vazios.

Agora não adianta apontar culpados. Temos que arregaçar as mangas e fazer nossa parte. Trabalhar quem precisa trabalhar e enfrentar esse gigante que amedronta nossos sonhos de humanos mortais. Ficar em casa quem pode e precisa. Cobrar daqueles que são os responsáveis por fazer acontecer: os gestores. É preciso chama-los a responsabilidade e cobrar as medidas necessárias para diminuir as perdas, humanas e financeiras.

E que amanhã possamos estar juntos novamente, pois a vida é feita de ciclos, dolorosos e necessários. Já passamos, enquanto humanidade/sociedade, por duas grandes guerras, tragédias, terremotos, tsunamis, outras pragas virais, acidentes radioativos, sem falar naquelas mazelas que nos matam aos poucos diariamente, como a fome e a miséria.

Existe uma frase atribuída a Franz Kafka que diz o seguinte: Tudo o que você ama, você eventualmente perderá, mas, no fim, o amor retornará em uma forma diferente. 

Sim, o sol vai nascer novamente e junto com ele a esperança de dias melhores. Sim, a esperança vai nascer novamente e aprenderemos, juntos, a ser mais fortes e melhores para nós mesmos e para os outros...assim eu espero, com uma lágrima e uma prece, amém!




Sobre a autora:
Silvia Nery é médica psiquiatra, estudante de direito da UEA e uma entusiasta das letras. 
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