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01/05/2020 às 12h25min - Atualizada em 01/05/2020 às 12h25min

A gente começa número e termina número

Silvia Nery
Especial para o M2 News
Depois de um dia inteiro de trabalho me peguei pensando: quem inventou o número?

Fui pesquisar e descobri que os sistemas de numeração mais antigos são dos egípcios e dos babilônios, aliás os egípcios nunca me decepcionam. Mas as contribuições mais duradouras foram dos indianos e dos árabes, que criaram o sistema de numeração indo-arábico, utilizado no mundo inteiro. Claro que existem outros.

Os números são fantásticos e permeiam, mesmo que inconscientemente toda a nossa vida e também a nossa morte. Quando nasce um bebê, alguém logo pergunta: nasceu com quantos quilos? Quantos centímetros? É de nove meses?
Então seus pais vão ao cartório de Registro natural, onde se registram as pessoas e você passa a ser uma matrícula, um número e assim você passa a existir oficialmente.

Ai, você vai para escola: quando é seu aniversário? Número do calçado, da roupa, sua nota? Você aprende a lidar com o dinheiro.

Aí você cresce e no seu dia a dia continua lidando com os números. Você mora em uma casa que tem um número, numa rua, num bairro qualquer. Você passa a ter RG (Registro Geral), CPF (Cadastro de Pessoa Física) e principalmente, título de eleitor. Talvez esse seja o número que te confira mais poder, mas muitas vezes você não se dá conta disso. O dia a dia te faz cansado e a gente cansado reflete cada vez menos, vai no piloto automático mesmo.

No meio de tudo isso, lembrei que alguém genial, usando os números, passou a contar o tempo em pequenos pacotinhos de segundo, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, décadas e séculos. Passamos a nos orientar no tempo com essa nova invenção. Mas o que vem de melhor com ela é que podemos a cada novo ciclo renovar a nossa esperança, afinal, um novo dia nascente, um novo mês ou um novo ano pode trazer aquilo que tanto esperamos.

Com essa infecção pelo novo vírus, passamos a ver o boletim diário: quantos infectados, quantos curados e quantos morreram vítimas de enfermidade tão atroz.

 Quando você morre, sua família procura novamente um cartório de registro civil para registrar o seu óbito. Ali você ganha um novo número, uma nova matricula. Está oficialmente extinta a sua pessoa natural. Você não existe mais oficialmente. Mas ainda não é o fim.

O estado tem seus trâmites para dar uma destinação digna aos nossos restos mortais. Você ganha uma sepultura, com um número, uma quadra e uma rua dentro do campo santo. Isso nos confere uma dignidade enquanto pessoa.

 Entretanto, assistindo ao noticiário, que aliás tenho visto cada vez menos, deparei-me com uma cena que me causou ojeriza e perplexidade: face ao grande número de corpos a serem sepultados e da exiguidade de terra destinada aos sepultamentos, estes estavam sendo feitos empilhando um caixão sobre o outro. Pessoas que não eram parentes e não tinham nenhum vínculo, nenhuma relação entre si, causando revolta aos familiares e a qualquer pessoa que assistisse a tal cena. Isso foi dia 27 de abril de 2020. Dia em que faleceram e seriam inumadas 141 pessoas, porque afinal é importante mostrar os números!

Assim, nascemos número e morremos número e neste intervalo de tempo da nossa frágil existência tentamos nos individualizar, ter nossa subjetividade respeitada, deixar nossas marcas, mas mesmo o mais poderoso e opulento sucumbirá inexoravelmente ao sabor do tempo e ao correr das horas. Então, aproveitemos o intervalo...
 



Sobre a autora:
Silvia Nery é médica psiquiatra, estudante de direito da UEA e uma entusiasta das letras. 
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