16/05/2020 às 15h06min - Atualizada em 16/05/2020 às 15h06min

Ladeiras da Saudade

Em sua coluna no Portal M2 News, Silvia Nery conta as histórias por trás dos atendimentos psiquiátricos que fez em Manaus

Silvia Nery - especial para M2 News
Foto: Arquivo Pessoal/Silvia Nery
Por cinco anos trabalhei como psiquiatra no Centro de Atenção Psicossocial Benjamim Mathias Fernandes (CAPS SUL). Fui chamada para compor a equipe de matriciamento da Secretaria Municipal de Saúde de Manaus.
Esta equipe era formada por um médico psiquiatra, psicóloga e assistente social, além do motorista da van da secretaria e sempre se fazia acompanhar pelos estagiários de psicologia.

O CAPS SUL desenvolvia a estratégia de apoio matricial do Ministério da saúde e consistia em articular ações junto aos outros órgãos e secretarias como o centro psiquiátrico, CRAS, CREAS, delegacias, SEMMASDH, policlínicas e principalmente com as estratégias de saúde da família, conhecidas como “casinha da família”.

Entre ambientes insalubres, subindo e descendo ladeiras, vivenciamos histórias para serem guardadas para sempre na memória e no coração.

Minha primeira paciente de visita domiciliar era uma professora de uma tradicional escola particular que foi acometida de uma depressão grave e vivia com o pai cadeirante demenciado por um Acidente Vascular Cerebral (derrame). Fomos acionados pela pastoral. Chamamos o SAMU, que só foi busca-la depois de um dia inteiro de insistência telefônica. Foi internada por 05 dias. Fizemos o contato telefônico posteriormente e para nossa tristeza fomos informados que ela falecera no mesmo dia que saira do hospital. De que? Só Deus sabe.

Uma outra paciente que me lembro bem, fui visitar com uma amiga psicóloga que era noiva e casaria naquela semana. A paciente morava com uma filha. Ao chegarmos ela estava sozinha em casa. Já na rua ouvimos gritos e uma espécie de briga. Quando nos aproximamos da porta e batemos a paciente nos recebeu com um cabo de vassoura nas mãos. Minha amiga psicóloga então disse: não posso apanhar no rosto. Vou casar essa semana. Eu respondi: então vire de costas. Ninguém vai ver as lesões... e corremos. Fomos perseguidas por ela na rua até a vã.

Conheci um maníaco depressivo que morava com os pais bem idosos e que não fazia acompanhamento, pois alegava que não precisava de acompanhamento, já que não era doente. Afirmava que havia sido presidente da república e que já havia escrito vários livros. Um deles se chamava: O Rio que corre pra trás. Um dia ainda penso em escrever um livro com este título para contar minhas memórias... quem sabe.

Também conheci uma mulher idosa, obesa, cujo marido havia falecido. Ela conversava com ele todas as noites. Não tinha parentes e era cuidada pela vizinha, que acionou a equipe porque a paciente além de não tomar banho e manter a casa suja, estava agressiva e não aceitava mais a alimentação com medo de ser envenenada. Foi levada para o hospital psiquiátrico e depois se articulou uma vaga na fundação Dr. Thomas.

Certa Feita, por demanda da defensoria da saúde fomos visitar um rapaz que não saia de casa, não trabalhava e havia botado a mãe fora de casa. Quando fomos a casa ele nos recebeu com um cachorro imenso e perguntou onde estava o mandado ou ordem judicial para entrar. Retornamos uma segunda vez com um documento do serviço para tentar um diálogo. Novamente nos apresentou o cachorro imenso e não nos recebeu e na terceira vez também não nos deixou entrar, com seu fiel cão de guarda. Nem sempre é fácil ou obtemos sucesso.

Conhecemos casas de apoio, abrigos, vários casos de acumuladores, situações familiares extremamente complexas... mas nem só de fracasso se vive, então seguirei contando dois casos dos quais me orgulho muito de ter participado.

O primeiro foi de uma visita feita a uma família que tinha duas irmãs que não saiam de casa há 30 anos. O pai havia falecido e a mãe, com medo que elas sofressem qualquer tipo de abuso as manteve em casa. Elas eram pálidas, quase marmóreas da reclusão. Uma delas era esquizofrênica paranoide, tinha vários delírios, em um deles afirmava que os seus corpos eram transpassados por raios ultravioletas e teleguiados por extraterrestres. Perguntei sobre queixas no corpo e ela me relatou a existência de um “esporão calcâneo”. Perguntei então se ela não aceitaria um medicamento injetável para o esporão (Haldol de depósito para sintomas psicóticos, do transtorno mental). Ela aceitou. Melhorou muito, passou a frequentar o Caps e se socializar. Conheceu o shopping e até pediu para conhecer a ponte sobre o Rio Negro, cartão postal da nossa cidade. Ela inclusive passou a dar as “vitaminas” da irmã, que tinha esquizofrenia hebefrênica, com um quadro mais complicado tratado com olanzapina e que também melhorou consideravelmente.

O último caso que relato é de uma moça de 18 anos, também esquizofrênica, que não saía de casa, era agressiva, obesa, não tomava banho. Passava o dia inteiro no colchão sujo no chão. A imagem dos cabelos cheios de nós, com bastante piolho, nunca saíram da minha cabeça. O cheiro era forte. Era cuidada por uma mãe que trabalhava e uma tia que “dava uma olhada”. Foi também medicada com Haldol de depósito mensalmente e melhorou bastante. Passou a cuidar da higiene, mexer no celular, assistir TV,  frequentar atividades no CAPS, socializar, era muito doce quando estava medicada. E na última consulta verbalizou que queria estudar. Sua única queixa era a obesidade, pois com o tratamento passou a se cuidar e se importar com o seu corpo. Tinha um comprometimento da sua afetividade, mas estava antenada neste mundo.

Tantas histórias de vida pudemos presenciar caminhando entre ruas, barrancos, vielas e ladeiras. A prática para além das paredes do consultório é de uma riqueza ímpar. Se existe algo que sinto saudade no serviço é exatamente de poder adentrar esses mundos. Isso é algo sagrado. O paciente está em seu ambiente, com a alma desnuda. Podemos observar a dinâmica familiar, muitas vezes já adoecida. A família grita. Pede socorro. Fazíamos os direcionamentos para o Pronto socorro nos casos de crises, para o CAPS nos casos dos transtornos mentais graves e persistentes, para as policlínicas os casos mais estabilizados cujo ambulatório daria conta do serviço e parceria com as estratégias de saúde da família nos casos difíceis que podiam ser controlados com o Haldol de depósito ou que já estavam estabilizados.

Quero deixar registrado o meu carinho e agradecimento às colegas: psicóloga Ághata Karoline (que não podia apanhar no rosto), Assistente Social Lídia Dias, psicóloga Nayandra Sthéphanie e a que tinha a voz mais linda e muito estilo, assistente social Rejeane Barros. Agradeço a todas por subirem e descerem essas ladeiras comigo e dividir esse tesouro afetivo imenso de experiências impagáveis.

Certa vez escreveu Saint-Exupéry em seu livro “Terra dos Homens”: Não há como substituir um velho companheiro. Nada vale o tesouro de tantas recordações comuns, de tantos momentos difíceis vividos juntos, tantas desavenças e reconciliações; tantas emoções compartilhadas. Assim, dedico a vocês minhas amigas e velhas companheiras de trabalho essas linhas, as quais nomeei   “Ladeiras da saudade”.




Sobre a autora:
Silvia Nery é médica psiquiatra, estudante de direito da UEA e uma entusiasta das letras. 
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