28/09/2021 às 12h10min - Atualizada em 28/09/2021 às 12h10min

Advogada relata invasão a escritório e diz que 'medo' impulsionou kit covid

UOL
Foto: Reprodução/Uol
 

A advogada Bruna Morato, representante de médicos que fizeram denúncias contra a Prevent Senior, reafirmou hoje, em depoimento à CPI da Covid, que a operadora de saúde implementou uma política interna de "coerção", e que os profissionais de saúde acabaram receitando o chamado "kit covid" por medo de sofrerem retaliação.

A Prevent Senior tem uma política de coerção, que ficou bem evidente após a denúncia na verdade, mais evidente ainda com o vazamento de alguns áudios. Todos os clientes que resistiam foram demitidos da operadora, então existiam aqueles que já tinham sido demitidos e que achavam aquela situação repugnante. Outros que ainda estavam na operadora ainda lutam pelo bem-estar dos pacientes. Então, quando eles me procuraram, eles pediram que eu nem os identificasse para o próprio jurídico da empresa, porque eles sabiam que, se fossem identificados, eles seriam demitidos. E volto a dizer: são bons médicos.
Bruna Morato, advogada e depoente de hoje na CPI da Covid

Ao longo da oitiva, a advogada também revelou que teve seu escritório, em São Paulo, invadido por criminosos de forma "muito estranha". Ela ressaltou que não tem provas ou evidências que possam vincular o ato com uma suposta tentativa de vingança. Observou, por outro lado, que passou a se sentir ameaçada desde então.

"A atitude que essa quadrilha teve no prédio foi uma atitude muito estranha, então eles começaram de sexta até segunda-feira, então do horário que eu saio do prédio, que é sexta-feira às 18h, até às 9h da manhã de segunda-feira, eles entraram e saíram do prédio procurando algo. Entraram em várias salas, e eles não levavam nada, então... Parecia uma brincadeira", relatou ela.

De acordo com a versão da depoente, o escritório foi invadido logo depois que as denúncias do grupo de médicos e ex-médicos da Prevent Senior se tornaram públicas.

"Entraram no meu prédio com um equipamento eletrônico muito moderno para o que foram fazer. Duplicaram o IP [protocolo de internet, na sigla em inglês] de todas as câmeras de todos os andares e deixaram o sistema de segurança vulnerável por quatro dias."

Brana afirmou ainda que, do seu escritório, foram furtados um computador e um iPad, ambos bloqueados com senha. No dia da invasão, disse a advogada, o grupo também rompeu o cano de um banheiro no escritório vizinho ao dela. A depoente reque precisou prestar esclarecimentos a outros condôminos e que a situação foi "constrangedora".

A advogada ressaltou que os arrombamentos foram "muito bem feitos" e que a câmera flagrou "pessoas bem vestidas" na noite da invasão. Um boletim de ocorrência foi registrado junto à Polícia Civil de São Paulo.

Quando outros condôminos e eu fomos registrar o boletim de ocorrência, a gente nem tinha tanto interesse assim, porque eles levavam de uma sala... Pra vocês terem ideia, eles entraram numa sala e levaram uma pasta velha, aí pegavam essa pasta, deixavam numa outra sala de um outro condômino, não levavam nada, aí entravam em outra sala... E arrombamentos muito bem feitos
Bruna Morato, advogada e depoente de hoje na CPI da Covid

Após a situação, Bruna diz estar se sentindo ameaçada e que apenas itens de baixo valor foram levados para "desvalorizar o boletim de ocorrência".

Bruna afirmou hoje à CPI que os profissionais das unidades da Prevent eram obrigados a prescrever o chamado kit covid com hidroxicloroquina e outros medicamentos sem eficácia comprovada contra a doença.

"Chegou a um ponto lamentável, na minha opinião. Esse kit era composto por 8 itens. O plantonista dizia para o paciente: 'Preciso te dar. Se eu não der, sou demitido. Se você for tomar, toma só as vitaminas e proteínas. Os outros [medicamentos], além de não terem eficácia, são muito perigosos."

A médica ressaltou que público-alvo da operadora é formado por idosos acima de 60 anos. "O conjunto de medicamentos, apesar de ser ineficaz, para aquela população se tornava potencialmente letal", disse aos senadores da CPI.

Bruna também relatou que os kits oferecidos pela Prevent Senior eram lacrados e a receita médica estava pronta. "Eu não tenho como falar para meu cliente que está exercendo a função de forma autônoma", disse.

Na semana passada, o diretor-executivo da Prevent Senior, Pedro Benedito Batista Júnior, defendeu que os médicos tinham autonomia para determinar o tratamento ideal.

A Prevent Senior, que já é alvo de investigações no Ministério Público, na Polícia Civil e na CPI da Covid, é acusada de supostamente pressionar seus médicos conveniados a tratar pacientes com substâncias do "kit covid", como hidroxicloroquina, que não tem eficácia comprovada contra a covid-19.

Ela também é suspeita de ter conduzido um estudo sobre a hidroxicloroquina no tratamento da doença sem avisar pacientes nem seus parentes. Tal estudo teria omitido mortes de pacientes, influenciando o resultado para dar a impressão de que o medicamento seria eficaz.

O procurador-geral de Justiça, Mario Sarrubbo, criou uma espécie de força-tarefa —composta pelos promotores Everton Zanella, Fernando Pereira, Nelson dos Santos Pereira Júnior e Neudival Mascarenhas Filho— para investigar as denúncias contra a Prevent Senior.

Diante das acusações, a empresa vem argumentando que não havia orientação direta para uso da hidroxicloroquina ou cloroquina porque os médicos são livres para prescrever o medicamento que julgarem mais adequado para cada paciente.

A empresa também nega que tenha adulterado qualquer estudo clínico. Há suspeita de que pacientes que morreram em decorrência da covid tiveram seus atestados de óbito emitidos sem referência à doença causada pelo coronavírus, como a mãe do empresário Luciano Hang, apoiador do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

 


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