Menos de 2% de atendimento por rede de esgoto. Esse é um dos dados que chamam a atenção no diagnóstico do saneamento básico de Japurá, município do interior do Amazonas, localizado a 744 quilômetros de Manaus, com mais de 55 mil quilômetros quadrados de extensão territorial. O levantamento também aponta desafios no abastecimento de água, na destinação dos resíduos sólidos e na drenagem urbana, revelando a dimensão do trabalho necessário para ampliar a infraestrutura sanitária na região.
O cenário foi detalhado no Relatório Geral do Saneamento Básico de Japurá, estudo elaborado pela Associação dos Engenheiros Ambientais do Amazonas (AENAMBAM), sob a coordenação da engenheira Janeth Fernandes da Silva. A iniciativa contou com recursos do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) e do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Amazonas (Crea-AM), por meio de edital de fomento, além da parceria institucional com a Prefeitura de Japurá.
Concluído em outubro de 2026, o diagnóstico reúne informações demográficas e ambientais, além de vistorias de campo, para avaliar os quatro componentes do saneamento básico e oferecer subsídios técnicos ao planejamento municipal.
Esgotamento sanitário concentra um dos maiores desafios
Segundo o levantamento, menos de 2% dos moradores são atendidos por rede de esgoto, enquanto mais da metade dos domicílios utiliza fossas rudimentares. Os dados evidenciam a necessidade de avaliar e planejar soluções adequadas à realidade local, considerando as características geográficas e as dificuldades logísticas da região.
No abastecimento de água, a rede geral atende pouco mais da metade da população, conforme os números apresentados no estudo. O relatório também identifica necessidades relacionadas à capacidade de armazenamento, ao controle da qualidade da água e à ampliação do atendimento às comunidades isoladas.
A destinação dos resíduos sólidos representa outro ponto de atenção. Embora haja coleta diária de lixo na área urbana, o estudo registra a disposição dos resíduos a céu aberto em uma área rural, com práticas de queima e aterramento. O documento destaca ainda a importância de estruturar iniciativas de reciclagem e ampliar a inclusão dos catadores de materiais recicláveis.

Já na drenagem urbana, o diagnóstico aponta a necessidade de ampliar a infraestrutura de escoamento das águas pluviais e manter ações preventivas para reduzir problemas associados a alagamentos e processos erosivos.
Engenharia ambiental aplicada à realidade amazônica
A elaboração do relatório busca transformar informações técnicas em uma ferramenta de planejamento para o poder público. Ao identificar carências e organizar dados sobre a situação local, o estudo pode contribuir para a definição de prioridades, a elaboração de projetos e a preparação de propostas para captação de recursos estaduais e federais.
O trabalho também considera uma característica fundamental do Amazonas: a dimensão territorial, combinada à dispersão populacional e à dependência do transporte fluvial em diversas localidades. Esses fatores exigem soluções de saneamento compatíveis com as condições ambientais, sociais e logísticas de cada município.
Para a AENAMBAM, a experiência de Japurá reforça a importância da participação da engenharia ambiental na formulação de políticas públicas e na construção de alternativas técnicas para melhorar a qualidade de vida da população.
“Embora cada município tenha necessidades específicas, a metodologia de diagnóstico integrado pode servir de referência para os administrações municipais conhecerem suas próprias demandas e estruturar o planejamento do saneamento.”, afirmou Janeth Fernandes, coordenadora do projeto.
A existência de informações organizadas é uma etapa importante para dimensionar investimentos, estabelecer prioridades e fundamentar projetos. O relatório não garante, por si só, a obtenção de recursos ou a execução de obras, mas oferece uma base técnica para orientar as próximas etapas de planejamento.
Em Japurá, o estudo coloca em evidência um desafio que ultrapassa os limites de um único município: fazer com que o planejamento da infraestrutura sanitária considere as particularidades da Amazônia e contribua para ampliar o acesso à água de qualidade, ao esgotamento sanitário e à destinação adequada dos resíduos.
A experiência também abre espaço para o debate sobre como associações profissionais, conselhos de engenharia e administrações municipais podem colaborar na produção de diagnósticos técnicos voltados às necessidades da população.
Sobre a AENAMBAM
A Associação dos Engenheiros Ambientais do Amazonas (AENAMBAM) atua na representação e valorização dos profissionais da engenharia ambiental no estado. Por meio de iniciativas técnicas e institucionais, a entidade busca contribuir para o debate sobre questões ambientais e para o desenvolvimento de soluções adequadas à realidade amazônica.